A Tradição Primordial também é dita "perene" porque sabe se transformar e adaptar, seguindo as próprias diretrizes da vida, sobre balizas universais que asseguram o equilíbrio do Todo, hoje em dia também chamado de “Holístico”. Costuma-se definir este eixo através de Trindades divinas.
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segunda-feira, 28 de março de 2016

COMO SE CONSTRÓI UMA NAÇÃO – EVOLUÇÃO HUMANA & EDUCAÇÃO PERMANENTE

Todo o Hemisfério Sul do planeta e parte do Norte estão hoje constituídos por nações em formação herdadas dos processos de colonização dos últimos quinhentos anos de História.
Uma nação se constrói pela educação e pela evolução social, não pela revolução ou conflito entre classes ainda em formação. Revoluções dependem de se ter um bolo sólido para repartir, no caso, uma sociedade previamente estruturada. 

Afinal seus antepassados não foram papas, nobres ou fidalgos, e sim índios, negros e degradados; por isto precisamos mais de evolução social do que de revolução social; mas sem perder estas bases culturais é claro.
A grande resposta política para as novas nações, 
está em atacar o velho problema do colonialismo a fim de estancar a sangria de recursos para haver o necessário para todos e fomentar o dinamismo sócio-cultural. É muito importante enfatizar a questão cutural no caso das nações-em-formação. Então, a grande questão é investir no Dinamismo Social –e Cultural- através da educação permanente.


1. PROLETARIADO. Na base de tudo, está a situação dos párias miseráveis que sofrem a exclusão social pelas razões mais torpes como raça, sexo, herança e cultura. Todos estes alijados devem ter a oportunidade de sair da exclusão e receber trabalho, recursos básicos de subsistência e acesso à educação elementar. Com isto podem ingressar na classe proletária e usufruir de uma dignidade mínima na vida.


2. BURGUESIA. Logo, os proletários devem ter a oportunidade de ascender social e economicamente, através da progressiva qualificação do trabalho recompensado, e pelo controle dos próprios meios de produção e da educação média de qualidade, tendo acesso assim à certa prosperidade econômica e à cultura humanista. Com isto podem ingressar na classe burguesa e usufruir de uma dignidade razoável na vida.

3. ARISTOCRACIA. Em seguida, os burgueses devem ter a oportunidade de ascender para uma formação idealista através da aquisição de nobres concepções sociais, nacionais e espirituais, assim como à cultura realmente ampla da verdadeira educação superior. Consagrará daí parte ou todo o seu tempo em favor da cultura e também do seu patrimônio herdado ou adquirido em prol de situações sociais mais elevadas, como são empresas com capital social, comunidades holísticas, meio-ambiente e a defesa dos interesses comuns, assim como a prática sistemática da docência. Com isto podem ingressar na classe da aristocracia cultural, onde se busca aprimorar um equilíbrio de valores e a verdadeira vocação política cidadã. 

4. CLERO. Por fim, os próprios nobres ou aristocratas devem ter a oportunidade de voltar-se plenamente para a espiritualidade, dedicando-se integralmente aos valores mais elevados e refinados e consagrando-se às experiências espirituais, praticando o desprendimento e especializando-se nos saberes mais sutis e refinados. Com isto podem consumar o Plano de vida do ser humano, coisa perfeitamente possível e até necessária no ciclo atual da humanidade que começa agora, conquistando daí as chaves da imortalidade. Não obstante, realizando tais tarefas em tempo hábil, a pessoa ainda pode se capacitar para avançar sobre energias consideradas supra-humanas, daquele tipo que detém os Mestres de Sabedoria ou os próprios avatares, auxiliando a preparar assim as etapas futuras da humanidade.

os quatros ashramas
O quadro aqui descrito pode ser mais ou menos observado na formação das nações antigas, ainda que com o passar do tempo haja tendência à cristalização de classes gerando as castas ou classes fixas estratificadas com maior ênfase na economia do que na cultura 
–quando então sim, começam os ciclos de revoluções desconstrutivas e materializantes.
No Brahmanismo em especial, as etapas espirituais estavam perfeitamente associadas às instituições sociais através da Educação Permanente, codificadas através dos ashramas, base posterior para a educação de varna, as castas.

Leia também:

Os ashramas e a educação sócio-espiritual hindu
Classes sociais e estados-de-consciência: correlaçõs originais

Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com
 cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.

Editorial Agartha: www.agartha.com.br
Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957



terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A FILOSOFIA APROVA O HOMOSSEXUALISMO?


Se conhecem religiões que desaprovam as relações homossexuais, enquanto outras aparentemente não opinam de maneira clara a respeito, mas velam ideias que tratam seguramente destas questões tão fundamentais para a condição humana.
Resumidamente, todas as Cosmologias ensinam sobre a saída do caos original para a formação das energias opostas/complementares e dos Elementos da Natureza, forjando –estes sim- a diversidade destinada a uma síntese e recomposição superior na tríade ou na quintessência. O mesmo tema está reproduzido no começo de “Doutrina Secreta” H. P. de Blavatsky.



Assim, a homossexualidade não passaria daquele estado caótico (ou pré-formado) das energias humanas, presente na primeira fase de manifestações sexuais da criança, estado ao qual o ser humano também pode padecer por atrofia psíquica ou regressar através do abastardamento da sexualidade.
Portanto, educar “segundo a Natureza” para a diferenciação dos sexos, representa um gesto de evolução, para além de propiciar a perpetuação da espécie. O suprasumo da sexualidade e do amadurecimento do amor, se dá através das almas-gêmeas, que são relações únicas e exclusivas onde as leis do instinto se acham altamente sublimadas ou transfiguradas. A Teosofia fala de raças que eram inicialmente “hermafroditas” mas que depois separaram o sexos.

E quando certos filósofos contemporâneos defendem relativismos tipo “os gêneros são uma construção cultural”, eles até podem estar relativamente certos neste diagnóstico, apenas não alcançam compreender o quanto aquele procedimento cultural estaria CORRETO! Erram redondamente estes filósofos, portanto, na prescrição do remédio ao questionar a validade da educação tradicional.

Sucede então que certas premissas religiosas que ajuízam negativamente o homossexualismo, não representam meros “dogmas machistas” ou “patriarcais” como querem alguns, mas derivam de concepções filosóficas e cosmológicas de grande universalidade, não raro presentes nestas mesmas religiões (comumente inspiradas em religiões ou cosmologias mais antigas), como ocorre no Genesis dentro das religiões judaico-cristãs e também islâmicas.
No campo da filosofia clássica, Platão considerava o homossexualismo como “contrário à natureza” e julgava que, apesar da pederastia estar difusa na sociedade grega em algumas camadas sociais na sua época (a qual considerava decadente), uma lei anti-pederasta poderia chegar a encontrar boa acolhida em muitas cidades gregas.




Tudo isto representa o oposto, portanto, daquele estado-de-caos de energia/consciência onde tudo é igual e indiferente. O objetivo da evolução, é produzir as diferenças para alcançar a identidade das coisas acima das formas, preservando estas contudo como bases para a evolução física, mas também para a própria magia da transcendência. E esta é uma questão que os apologistas da “supremacia gay” não alcançam compreender, confundindo simplesmente o Nada com o Tudo!..

* Quando falamos em Filosofia (termo forjado pelo grande Pitágoras), não nos referimos em absoluto a esta prática moderna de comprar diplomas através de cursos intelectualóides ou de papagaiar filósofos antigos aprovados pela burguesia. “Filósofo” é alguém que realizou as leis imutáveis do universo em si, despertando nele a luz do ser universal.




Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.

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quinta-feira, 9 de julho de 2015

O CAOS CIVILIZATÓRIO NO ESTADO LAICO E A SINARQUIA PERENE


Quando Marx apresenta a sua “clássica” apologia à burguesia, dizendo no seu “Manifesto Comunista” que nas mãos da burguesia “tudo que é sólido se esfuma no ar”, para exaltar seu poder de destruir as antigas estruturas socioculturais cristalizadas ao final da Idade Média através das revoluções políticas, econômica e culturais que a burguesia promoveu no mundo, parece não estar ciente das consequências que pode ter esta situação a médio e a longo prazo para o planeta e para a própria humanidade.
Não por acaso, os grandes calendários mundiais (como o do Manvantara) atribuem às Idades do Mundo regidas pelas visões-de-mundo liberais e materialistas, um período cada vez mais reduzido. Paradoxalmente, “o reino da quantidade” humanista é o mais fugaz. Mas, naturalmente, “o reino da qualidade” teogonista é o mais estável e permanente, é ele que cria, afinal, as grandes estruturas culturais e civilizatórias, representando ademais a Súmula sinárquica da Ordem social integral.

As Dialéticas Sociais: caos e ordem


Assim, a estruturas culturais humanas possuem uma íntima relação com o tempo, em sua associação com o nível de consciência das classes dominantes.
Atualmente pode parecer que a “burguesia internacional” dá as cartas, porém isto é apenas aparência. Se a classe rica detém o controle e dá a direção das coisas, é apenas porque ela possui maior capacidade para isto, e porque a cultura-de-massa do proletariado (sempre mais passivo e acomodado) não pode subsistir sem ela para conferir conteúdo e dinamismo às coisas, como Marx tacitamente reconhece através da frase citada no início. Não obstante, o domínio mais profundo é da própria cultura-de-massa, que requalifica e amplia as regras da burguesia, impondo inclusive a democracia moderna (representativa) e, eventualmente, as suas próprias ditaduras. A democracia representativa significa mais, é verdade, uma demagogia burguesa destinada a prevenir as ditaduras proletárias e até as repúblicas nacionalistas (que podem ser proto-aristocracias).


Ocorre que as classes sociais se organizem em binômios, a título de corpo-e-alma. Na esfera “humanista” temos a dialética liberal-materialista entre burguesia e proletariado, onde a burguesia possui o dinamismo e o primado cultural, sendo daí a sua “alma”. O proletariado confere, por sua vez, a cultura-de-massa que faz a festa da burguesia, dando-lhe mão-de-obra e expansão do consumo.
Já na esfera teogonista, existe a dialética espiritual-idealista entre o clero e a aristocracia. As verdadeiras Monarquias se definem por uma relação estreita com a religião, a qual permaneceria por sua vez quase encerrada nos claustros não fosse a organização política e social da aristocracia. A monarquia não é apenas a lei do mais forte e ágil para comandar a tribo nas suas necessidades e na expansão das suas capacidades. É sobretudo aquele que conduz toda a nação em consonância com as leis sagradas, elevando-a a um novo padrão de dignidade e justiça, além de expandir esta nobreza pelas redondezas pela força, cultura ou diplomacia, na medida das possibilidades ou das necessidades, afinal não é possível ter um estado de paz cercado de balbúrdia e de instabilidade.
Assim, a Monarquia trata de dar um corpo social ordenado para as propostas espirituais custodiadas pelo clero. E nisto existe toda uma harmonia universal, onde as quatro classes sociais tradicionais, representando todos os estados-de-consciência humanos, alcançam representar o Homem Coletivo, que é o corpo social do Cristo (ou a Igreja como associação comum) ou, na versão oriental, do Manu.


A Grande Dialética dos Tempos


Assim, comparativamente, a sociedade laica liberal-materialista é como muito como uma entidade acéfala e insensível, na medida em que proscreve na prática aquelas classes sociais tradicionalmente responsáveis pelo cérebro coletivo e pelo coração social, tentando daí viver das migalhas de virtudes roubadas aos tempos, amplamente amparada sobre calúnias, mentiras e oportunismos, e em nome de uma forma-de-vida cada vez mais corrompida, imoral e insustentável.
Não obstante, e como o leitor já terá concluído, por detrás destas dualidades sociais, existe uma Dialética Maior e mais verdadeira, abarcando o conjunto das quatro classes sociais em seus pares dualistas cíclicos. Pois embora os humanistas custem a reconhecer, mesmo a dualidade humanista depende da dualidade teogonista das origens para deter uma identidade e sua mera existência posterior, pese subsistir quase meramente de refugos & restolhos daquilo que um dia foi uma grande cultura e uma pujante civilização.


Neste sentido, a burguesia possui analogias fundadoras com o clero, ao passo que o proletariado possui analogias passivas com a aristocracia; e onde as classes mais passivas aspiram e almejam sempre alcançar a consciência das forças sociais fundacionais.
Assim sendo, a burguesia adapta a religião (para substituir o clero) conferindo-a “humanismo” -vide Luteranismo, dando asas para a Teologia da Prosperidade, de inspiração paulina, ao passo que na política busca ser liberal, substituindo todavia o discurso devoto pela sedução consumista. Este é o paralelo entre as classes psíquicas, senda também fundacionais, posto que o psiquismo dá o sentido mais profundo das coisas no plano da Humanidade.



Tal como o proletariado também adapta a aristocracia, como ao substituir as Monarquias por Ditaduras, quiçá vitalícias como são muitas coroas. Espiritualmente, se verifica também um discurso idealista e social análogo, de fraternidade e de defender os interesses do próximo. Este é o paralelo das classes mentais “subalternas”, sendo que o moderno primado da Ciência concreta representa também um caldo-de-cultura tipicamente proletário.
Neste aspecto, a verdadeira aristocracia não é passiva no plano da matéria, de fato ela é ativa aqui porque dá corpo e forma à cultura espiritual, como vimos, mas ela é sim passiva em relação às conquistas espirituais do clero, as quais almeja e admira, e por isto a protege e nela se ampara em busca de devota orientação, e por se tratar aquela da classe mais próxima do Cristo, trazendo assim o verdadeiro Alento das Origens.



Conclusões: nos rumos da Sinarquia

Podemos então ampliar e adaptar o “lema” da Revolução Francesa, nestes termos “sinárquicos”, acrescentando a importante “Veracidade” atual na esfera espiritual/religiosa:


        a. Veracidade: o clero = teocracias
        b. Fraternidade: a aristocracia = monarquias
        c. Liberdade: a burguesia = repúblicas
        d. Igualdade: o proletariado = democracias


Neste sentido, é possível sim harmonizar tudo isto num Regime Único, que é a própria Sinarquia quádruple, partindo da compreensão profunda da Unidade Social. Basta para isto, adaptar os quatro regimes sociais às esferas de poder, nestes termos:

        a. Nação (União): teocracia
        b. Regiões (Biomas): monarquia
        c. Estados (Províncias): repúblicas
        d. Municípios (Cidades): democracias



A democracia cidadã e citadina, representa, pois, a base política de tudo, mas também, inversamente, é o objeto final do Governo iluminado (quiçá algo aos moldes taoístas, como é comum), num sistema edificado sobretudo pela educação.
O quadro dado –especialmente apto e destinado às unidades continentais- trata, pois, da competência da consciência das classes sociais, sem as inversões demagógicas que se pretende impor mediante regimes sociais incabíveis, penalizando as nações com anti-ordens políticas ou caos sociais. Como acontece ao se propor, impor uma democracia num país-continente como é o Brasil, onde não existe forma possível de controlar os dirigentes que supostamente nos representam. A solução então, é dispor gente realmente qualificada nestes cargos mais inacessíveis ao vulgo, mais ou menos como prescrevia Platão. Uma vez que as cidades se tornem realmente democráticas, a segurança social estará assegurada.


E assim, o povo elege nas Cidades representantes proletários; os quais elegem por sua vez nos Estados representantes burgueses; os quais elegem então nas Regiões representantes aristocratas; os quais elegem por fim na Nação representantes religiosos.
E neste caso, estaremos trabalhando já com a Sinarquia quádruple (aquela do passado era trina), uma vez que a humanidade que surge nesta Nova Era se destina a despertar o quarto centro de consciência, que é o coração, de modo que o clero passa a adquirir um efetivo dom-de-mundo...
A grande novidade da Nova Era está, pois, no amadurecimento das instituições espirituais, como a própria religião (coroada pela iluminação/salvação terreal) e as almas-gêmeas, que é o matrimônio perfeito e puro entre almas maduras e devotadas a Deus, à Verdade e ao Bem Comum.



Isto também fará com que a etapa sannyasin dos ashramas védicos deixe de focalizar o abandono do mundo, por dar maior função histórica aos religiosos sociais (Brâhmanes) e maior dignidade ao próprio matrimônio; ainda que o antigo renunciante sempre pode seguir sendo útil ao mundo como santo e conselheiro nas aldeias.
Outra possibilidade seria, talvez, que a renúncia do esposo possa ser acompanhada pela mulher, e que o fogo na qual esta termine então os seus dias seja não o da pira crematória do marido, mas o da iluminação conjunta e final de ambos que o anterior apenas simbolizava.



Leia também:

A estrutura social clássica ou o Primado da Cultura


Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
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sábado, 4 de julho de 2015

A CIDADE ANTIGA OU OS HORIZONTES DA CIDADANIA PLENA

A antiga Bagdá circular
Deveria surpreender que o melhor aproveitamento de uma ideia seja alcançada por seus próprios criadores? É claro que não. E tal coisa acontece também com as cidades, cujo emprego moderno se acha altamente deturpado após adaptações e retomadas históricas mais ou menos recentes por parte de classes sociais menos credenciadas ao seu gerenciamento.

On (Heliópolis, Cairo), Egito
As Cidades Antigas são amiúde reconhecidas por sua grandeza, riqueza e diversidade. Contudo, tudo da vida tem o seu prazo e função delimitados. E assim, após seus primeiros milênios de fundamentação, glórias e posterior ocaso, na Idade Média houve um profundo istmo cultural em relação ao urbanismo, nos moldes como havia sido elaborado pelas sociedades antigas. E estas mesmas sociedades concordaram então em abdicar deste padrão cultural em toda parte, quando viram que já não estava dando bons resultados, optando então pelo feudalismo.
Ocorre que, para dar bons resultados, esta estrutura social necessita ser administrada a partir de critérios superiores, os quais já não estariam mais acessíveis então. Mais tarde, porém, a burguesia renascentista achou que as cidades grandes eram boas para os seus negócios, vindo a usurpar e a “reciclar” assim esta antiga estrutura cultural, sobre a qual não possuía todavia credenciais e nem legitimidade, a fim meramente de emergir socialmente e se apoderar dos Estados nacionais.


Carcassonne, França
As origens das cidades: uma breve antropologia cultural

É certo que uma estrutura cultural detém sempre diversas funções e deriva de necessidades múltiplas.
Inicialmente, as cidades teriam surgido de fortificações naturais, como simples promessas de segurança, mas com o tempo foram adquirindo nobreza, à medida em que as pessoas descobriam as vantagens de um convívio social mais próximo - sempre e quando havia uma profunda harmonia dentro do corpo social e a cidade fosse administrada com sabedoria e legitimidade.
Também é natural, neste caso, que as cidades surjam como soluções para grupos culturalmente coesos, em processo de crescimento e na aspiração de proteger a sua cultura e sociedade.


A Tenochtlitan asteca insular
Neste aspecto, sabemos que as sociedades antigas detinham certo caráter endógeno, ou seja, eram não-proselitistas, fomentando religiões ecumênicas de Estado, origem dos antigos “politeísmos” áryos que substituíram os fanatismos atlantes. O proselitista é um dos males humanos, pois além de oprimir culturalmente, também serve aos interesses de opressão humana e econômica. É evidente que houve imperialismo nos tempos antigos, porém, como disse o perenialista Frithjof Schuon, se tratava comumente de “imperialismo do céu”, benfazejo e iluminador, buscando pacificar sociedades fanáticas ou em lutas endêmicas que desestabilizavam regiões inteiras.
Pois bem, este caráter de relativo auto-centralismo cultural que marcou as origens da civilização, se refletia também na organização das cidades antigas, voltadas para a cultura e a cidadania, resultando inclusive no seu amuramento para fins de defesa e proteção das sociedades e suas culturas.



ataques a ônibus no Rio de Janeiro
Hoje as cidades são ambientes devassados e inseguros, obrigando as pessoas a se encerrarem nas suas casas, sobretudo nas sociedades sujeitas à maior desigualdade social. O fechamento da cidade e a redução do seu tamanho, representa muitas vezes um passo crucial para a aquisição ou a restauração da cidadania.
A ideia da cidade fechada impacta bastante o nosso imaginário, lembrando as cidades medievais, como se denunciasse o estado de insegurança em que vivemos todos. Contudo, esta é uma grande hipocrisia do urbanismo moderno, porque de várias formas somos vigiados todo o tempo, e cada vez mais.
O que mudou realmente nos tempos modernos? Ocorre que a Cidade Antiga possuía uma dignidade própria, que substituía a unidade política das nações que temos hoje. Na Antiguidade, as cidades representavam unidades políticas soberanas e relativamente autônomas. Não havia o conceito de nação que possuímos da atualidade, embora pudesse ocorrer o império, abarcando outras cidades ou regiões.



Persépolis, reconstrução artística
Naturalmente, este fato outorgava um status todo especial ao cidadão, já que a unidade política tinha em vista a construção da própria cidadania. As cidades dispunham daí de uma liberdade política especial, mas o preço disto era cuidar de própria segurança e dos seus proventos. Na sociedade moderna sujeita à soberania duvidosa do Estado, recaem todo tipo de ônus e obrigações aos cidadãos.

Dholavira, Gujarat (Índia), reconstrução artística
Assim, a cidade nasceu como uma ideia cultural, que foi sendo aos poucos elaborada. Surgiu algumas vezes por necessidade, e outras de forma deliberada, até que, desde uns cinco mil anos para cá, se tornou um caldo-de-cultura muito comum e quase universal, dando início à Era da Civilização. Na internet existe esta definição”
Civilização (do latim civita, que designava cidade; e civile (civil), o seu habitante) é o estágio da cultura social e da civilidade de um agrupamento humano caracterizado pelo progresso social, científico, político, econômico e artístico.” (Wikipédia)
Assim, a Civilização é a própria cultura das cidades. Todos estes grandes modelos culturais e econômicos que definem a evolução antropológica humana, sempre foram acompanhadas por etapas espirituais muito bem definidas. A cidade veio à luz, para habilitar a existência de um novo modelo antropológico em vista.


Chiban, Iemen: imemoriais arranha-céus de barro
No caso da Civilização, havia uma preocupação especial de concentrar cultura e informação, estando a cidade antiga consagrada para viabilizar a cultura da educação permanente; coisa que ainda não era possível nas humildes sociedades de base rural.
Tal como os templos viabilizaram a religião social no período Neolítico, os palácios possibilitaram a civilização coletiva, afirmando o primado da cultura universal, ainda destinados a uns poucos na época agrário (e ágrafo!) dos templos.
Mais tarde, nos tempos medievais, se passou a tratar das cidades apenas simbólica e minimalisticamente através de vilas e feudos fortificados, onde os castelos indevassáveis eram apenas a última segurança da soberania, servindo de refúgio para toda a população em caso de perigo.
Assim, a Cidade Antiga representa o grande Reino da Cidadania –e como não haveria de ser, quando a novidade foi consagrada pela sociedade mundial? Até cumprir o seu glorioso ciclo, e ainda assim houve depois adaptações sábias da parte dos autênticos porta-vozes da concórdia Universal.


Carcassonne, França

As “mil vantagens” da Cidade Fechada ou Insular

As cidades podem ser boas quando são bem administradas e existe tranquilidade social. Porém, para sociedades desiguais elas se tornam cada vez mais ambientes opressivos e como verdadeiras ratoeiras...
À medida em que deteriora o tecido social, novas medidas de segurança são tomadas, coibindo cada vez mais a liberdade da própria pessoa comum. Lá pelas tantas, suspeita-se que toda esta situação apenas se presta de maneira oportunista ao controle sobre o próprio cidadão, e que o Estado nem deseje realmente resolver os problemas reais.
Pois com isto todos se tornam “suspeitos” e vigiados e se termina simplesmente invertendo a premissa de que “todos são inocentes até prova em contrário”... Infelizmente estas coisas não são meras especulações, porque o Estado realmente possui esta tendência controladora, por motivações ideológicas vagas mas não ocultas. Os opressores adoram pretextos para poder controlar a todos em nome das “boas causas”!



E assim somos vigiados a cada passo, e em pouco tempo pretenderão colocar chips nas pessoas, sempre com as “melhores intenções”, para monitorar ainda mais aquilo que fazemos e pensamos.
A cidade antiga não era negligente quanto à segurança e cuidava da liberdade do seu cidadão. A regeneração social das sociedades oprimidas passa necessariamente pela racionalização do seu ambiente de convívio. E hoje se acrescenta o problema ambiental, que na verdade sempre existiu, mas que a mentalidade liberal/materialista tentou (e tenta) ocultar como pode.

Acaso podemos chamar a estas verdadeiras selvas-de-pedra de Civilização? Obviamente este conceito há muito foi perdido, demandando a sua restauração/renovação efetiva. Infelizmente, não se tem ainda começado a fazer planejamentos urbanos sérios para o futuro da humanidade. Aquilo que existe é basicamente fantasioso (mesmo quando contenha alguns ingredientes interessantes), o que é muito lamentável tratando-se de algo tão importante quanto o ambiente em que as pessoas vivem, convivem e buscam ser felizes – e livres.

Por suas próprias características, a cidade representa sempre uma tragédia em potencial, que necessita ser muito bem planejada. A adaptação das cidades para a cultura-de-massas representa uma destas tragédias, porque se trata de simples administração de espólio-de-guerra.
As cidades burguesas são, desde a época dos burgos medievais, armadilhas para confinar gente (“currais de consumo”) e esvaziar os campos para a exploração comercial.
A cidade moderna consome boa parte das energias produzidas pelo ser humano, apesar de ser um ambiente tão passivo fisicamente. Temos aqui uma boa metáfora do cérebro, o qual consome a maior parte do oxigênio absorvido pelo organismo humano. Com efeito a cidade representa uma estrutura de base intelectual, que apenas pode sobreviver quando administrada com inteligência.
Atualmente, a cidade consome muita energia passivamente, apenas para iluminá-la, por exemplo. E estas luzes ficam acesas para quê? Basicamente para fins de segurança das pessoas. Contudo, se tivéssemos cidades fechadas e reduzidas demograficamente, o caminho para a segurança já estaria resolvido por si mesmo.
O fechamento da cidade permite uma liberdade maior dentro do perímetro urbano, facilitando algo tão importante quanto é o convívio social, outorgando segurança e tranquilidade aos cidadãos. Enfim, a Cidade Fechada apresenta “mil vantagens” para a sociedade, tais como segurança, economia, liberdade e cidadania.

Medievalismo libertador também para o Novo Mundo!



Naarden, Holanda
Planejar cidades novas visando soluções ambientais, porém sem mexer nos valores sociais e humanos, pode apresentar desafios insolúveis. O consumismo e o materialismo devem ser evitados, sob pena de não se consumar a soberania e a cidadania das nações emergentes.
O caminho natural e verdadeiramente libertador das sociedades emergentes é o do “medievalismo”, visando criar segurança social em todos os aspectos. E não certas “utopias sociais” que não mexem nos verdadeiros problemas de valores e estruturas, sobretudo em culturas novas ainda sem soberania real. 
Cidades fortificadas e castelos foram por séculos e milênios, sólidos baluartes de libertação contra baderneiros, contra invasores e contra opressores. A organização social da cidade foi e será a grande fórmula para a libertação humana, agora todavia com maior valorização do meio ambiente.
Seria suficiente em princípio, propor através de resoluções alcançadas em consensos mínimos, que a cidade não fosse vulnerável a invasões fortuitas, ou ao acesso de estranhos e desconhecidos, em cidades rururbanas sempre com poucos milhares de almas. 

Palmanova, Itália
Ninguém entra em nossa casa se não for convidado. E ninguém ingressa num país sem ser identificado -alguns países até selecionam os seus turistas! Porque razão as cidades deveriam ser assim abertas como são hoje?!
As cidades até podem sem fraqueadas mas devem contar com sistemas de segurança eficazes, inclusive na esfera cultural. Cada vez mais, bandos e quadrilhas invadem as pequenas cidades para saquear, sabendo da vulnerabilidade destes locais. E cada vez mais, se tenta impor produtos de baixa qualidade e até perigosos aos cidadãos. Tudo isto deveria ser controlado e evitado em nome do Bem Comum.
Condomínios fechados são uma tendência crescente –embora ainda seja um luxo para poucos!-, e até os prédios públicos começam a exigir credenciais aos visitantes.


Atenas, Grécia
É preciso voltar a socializar o bem comum, mas isto não passa pela cidade grande “impessoal” ou pela cultura-de-massa. A cidade pequena é orgânica, isto é, é intercomunicável ou integrada. Todas as pessoas no mínimo se reconhecem e a partir disto podem se relacionar e intercambiar informações e serviços.
Afinal, este foi também o nascedouro da república e da democracia, como governo geral e social, capaz de fomentar inclusive o direito universal. Adaptada do ambiente tribal, a democracia antiga era direta e contava com o governo dos sábios e dos nobres, enfim, pessoas preparadas com cultura e pela disciplina, devidamente reconhecidas pelos povos como hábeis para as suas funções, e não através de plutocratas e mercadores de fantasias políticas, devotados apenas a interesses mesquinhos e sem preocupações reais com a cultura e a cidadania.

Leia também:
O Neomedievalismo
A estrutura social clássica ou o Primado da Cultura
O mito da exploração social pré-capitalista


Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
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sábado, 27 de junho de 2015

A ESTRUTURA SOCIAL CLÁSSICA OU O PRIMADO DA CULTURA

Todos sabem que a Pirâmide Social representa uma estrutura tradicional na sociedade humana, porém poucos conhecem hoje a sua verdadeira natureza, que é cultural e espontânea, buscando elevar o ser humano às alturas das suas possibilidades... 
Após certo tempo -mais ou menos longo dada a solidez das suas instituições-, esta natureza pode estar sujeita a distorções e a cristalizações atávicas, e daí também a investidas reformistas não raro ditadas por forças involutivas. 
Não obstante, após séculos de “Humanismo” e sucessivos ciclos revolucionários, parece que apenas se trocou uma Pirâmide Cultural em ocaso por outra Pirâmide Econômica amplamente desigual. Mesmo as revoluções materialistas não alcançaram solucionar os problemas da Modernidade, que pelo visto apenas trocou antigos mitos de glória e de salvação por novos mitos de progresso e de igualdade...
Assim, para quem deseja conhecer mais sobre os sólidos cimentos de milênios de civilização relativamente estáveis, contra os recentes séculos de civilização precária e fortemente suicida, vejamos algumas destas questões tradicionais.

O refinamento da cultura



A lei-do-mais-forte é uma realidade na Natureza, que amiúde repassa para a humanidade -tal como através do darwinismo social alegremente adotado pela burguesia nos séculos passados.
Contudo, faz muito que a Filosofia Política antiga adotou os critérios de valor e de virtude (coragem, solidariedade, etc.), adaptando os princípios darwiniamos ou refinando-os de fato. Mesmo porque força não é tudo, existe também habilidade, inteligência e cuidado. A isto tudo se agregou porém, na esfera humana, a pureza e a santidade, visando não substituir o materialismo, mas discipliná-lo e equilibrá-lo.
A pirâmide representa com certeza esta estrutura social convergente, mas de uma forma toda própria. Seu ápice ou cume destacado, é como um farol a iluminar a ascensão cultural dos povos. Trata-se, pois, de uma pirâmide social feita de baixo para cima, ainda que no seu cume existam aquelas forças supra-humanas inspiradoras da Civilização, da mesma forma como outros momentos da evolução humana também foram orientados por estas forças mais ou menos incógnitas...

Assim, mais que hierarquia social, havia uma convergência direta das quatro classes sociais clássicas no ápice transcendente desta pirâmide, velando valores ou conquistas supremas como salvação, iniciação, iluminação e ascensão. 


Os triângulos piramidais simbolizam os Quatro Elementos, que também fazem alusão à “cosmologia social”. Como demonstra fartamente a iconografa tradicional (calendários, pirâmides, etc.), o símbolo piramidal se converte facilmente nas mandalas (ou em suásticas) que denotam igualmente esta unidade e integração circular.

Ora, é fácil observar que na Estrutura Social clássica, os valores ascendem cultural e espiritualmente. 

O Manu e as castas
Tomemos o caso da Índia -onde as castas são emanações de um deus-, cultura razoavelmente conhecida dada a sua continuidade no espaço-tempo desde milênios atrás. Pese as várias distorções sofridas pelo seu sistema-de-castas, se sabe que a classe mais exaltada sempre foi a sacerdotal (os brahmanes), comumente relacionada ao ensino e naturalmente minotária pelo refino das suas atividades. E na outra ponta está o clássico proletariado –“aqueles que proliferam”- através dos sudras, os servidores.
Curiosamente, a classe comerciante (vaishya) não ocupa os topos desta pirâmide social, como acontece com a burguesia moderna. Ela está apenas acima dos humildes servidores. Como tal coisa é possível?! Apenas em função de uma estrutura social baseada em valores e não na riqueza. Na Índia clássica, os comerciantes são pequenos proprietários, geralmente agricultores, de modo que não costumam ser ricos.
Contudo, alguns nobres (kshatryas) são ricos, especialmente aqueles que atuam na administração do Estado como monarcas -sabemos afinal o quanto o poder pode corromper, e a casta guerreira estava associada ao poder. 
De todo modo, nas Sociedades Tradicionais, as elites são muito mais naturais e evoluídas, como elites da cultura, da ética e da consciência.
Aqui também se pode estabelecer certos paralelos com a Sociedade Medieval, embora esta comparação seja tema de debates. De fato, a cultura medieval europeia reproduzia em boa parte os valores clássicos e tradicionais.

Educação para todos

Para viabilizar uma condição de dinamismo, eram elaborados nas Sociedades Tradicionais sistemas educacionais especiais almejando padrões-de-excelência através das próprias instituições: escola, família, administração e sacerdócio. Naturalmente, um destaque especial era dado às Escolas Iniciáticas, para quem almejasse uma carreira realmente especializada.
A excelência da Casa Real era apenas um destes recursos, dentro de sistemas hereditários. Além de templos, mosteiros, universidades e práticas de nobreza, havia cidades especiais para forjar nobres e educar sacerdotes, como Macchu Picchu no Peru. Entre várias sociedades havia também o jubileu quinquagenária ou geracional, quando se tratava de renivelar a sociedade (hebreus) e desfazer-se dos supérfluos (maias-nahuas).
E havia, acima de tudo, sistemas educacionais especiais como os ashramas da Índia, destinados a capacitar as diferentes classes sociais segundo as vocações naturais das pessoas, um sistema tão puro e elevado que acabou se perdendo grandemente, ao se inverter a certa altura a subordinação classe-educação através das castas-de-nascimento (jativarna). Mesmo assim, ainda hoje existem os ashramas, sob diversas distorções.

Os famosos Jardins suspensos da Babilônia

Na Antiguidade, este conjunto de valores era melhor administrado a partir das próprias cidades. Naqueles tempos, os valores originais da civilização estavam puros; os sacerdotes ditavam as regras e a nobreza mantinha boas relações com o clero -e todos comumente orientados diretamente pelos profetas de Deus, que vagavam pelos desertos e montanhas...
O comércio e o trabalho eram empregados para servir ao conjunto da nação, incluindo os cultos plurais, as estruturas culturais e a identidade nacional, todos com seus devidos representantes. Esta unidade original é que recebeu o nome de “Civilização”.

Na Antiguidade prevalecia o conhecimento direto e a experiência, transmitido diretamente através de mestre a discípulo e pela cultura popular, especialmente os bardos e afins. A História associa a chegada da época do “individualismo” com o poder-de-registro, porém tudo isto apenas aconteceu sob a perda da unidade social e da memória viva sob a desagregação dos valores. Nas sociedades republicanas, a Filosofia se torna coisa diletante e já não uma base transformadora, já que existe um abismo entre o “real” e as metas superiores da Alma. Na tradição republicana, a cultura ainda é sinceramente valorizada pelos nacionalistas, porém os liberais fazem dela comércio e a corrupção moral e econômica deteriora as estruturas socioculturais.


Quando os valores tradicionais se deterioraram e a corrupção cresceu, antigas práticas republicanas tribais começaram a ser adotadas nas cidades européias, como em Roma e em Atenas, contestando a Monarquia de origem mormente oriental, que adquirira no Ocidente a má fama de opressora. César apenas tornou-se imperador após ser influenciado pelo Egito.
Não obstante, a Monarquia também existia nas sociedades tribais europeias, e na medida em que Roma demostrou a sua face mais dura e decadente, estas sociedades emergiram propondo um novo equilíbrio cultural.
Já não era possível preservar a velha ordem natural das tribos, contudo, a partir dali se começou a evitar cada vez mais as cidades, uma vez que se perdia aquela estrutura cultural “solar” –centralizada em valores elevados e ecumênicos- para a qual haviam sido criadas, pendendo antes para o imperialismo despótico, que é a anti-pirâmide involutiva sujeita às maiores cargas de ilusões
- e foi Roma que sinalizou isto para o Ocidente. 
Tais coisas começaram mais ou menos ao mesmo tempo em todo o mundo, ali pela virada da Era de Peixes, dando início assim ao período do feudalismo em quase todo o planeta –Europa, Índia, China, Japão...-, mantendo a burguesia sem maior poder e as cidades sem grande população, como correu até o final da Idade Média, quando os europeus começaram a reconquistar o planeta.

A anti-pirâmide capitalsta
Na esteira deste processo, hoje temos um novo surto de liberalismo e de materialismo global, ou seja: de imperialismo republicano. O proletariado julga necessária a ditadura porque o capitalismo também representa uma ditadura mais ou menos disfarçada. Como sair deste círculo vicioso? Enquanto prevalecer o consumismo, não se vê perspectivas.
Tocaria então às sociedades emergentes, em especial, manifestar e resgatar os valores tradicionais, devidamente adaptados aos novos tempos do mundo, refutando a massificação e evitando as megalópoles enfermas e tumorosas para a saúde do planeta e para a liberdade e o bem-estar dos seres humanos.


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Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
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domingo, 21 de junho de 2015

REFÉNS DO EGO: O CARMA FATAL DA “HERESIA DA SEPARATIVIDADE”


Hércules e a Hidra

Os descaminhos do mundo são os descaminhos do homem. Quem não anda com Deus dança com o diabo –no caso, o “diabo” é mais uma metáfora do nosso próprio ego. E o diabo adora seduzir a humanidade com ilusões de “liberdades” inalcançáveis, fúteis ou perigosas. Quer enfim afastá-la dos seus verdadeiros pastores, para que fiquem à mercê dos lobos.
Remonta aos antigos mitos do Pecado Original o afastamento dos seres humanos das Fontes de orientação divina. O orgulho, a vaidade e a cobiça, são as coisas que mais comumente levam as pessoas aos descaminhos espirituais.


Expulsão dos vendilhões
Os oportunistas se aproveitam das mazelas históricas e das quedas morais dos representantes tradicionais da espiritualidade e do direito social, para tentar as suas revoluções liberais, materialistas ou anárquicas.
Enquanto isto, os iconoclastas lançam mão de passagens duvidosas ou obscuras das Sagradas Escrituras, e as usam para difamar e renegar filosofias incomparáveis em profundidade e beleza. E assim, privam a humanidade de guiança e de alma, para torna-la como criança afável às seduções absurdas do consumismo.
E então, dentro destas “novas ordens” liberais e materialistas, os interessados nas coisas da alma e da verdadeira fraternidade, se vêem em maus lençóis, entregues ao ostracismo e reduzidos a mendicantes e a vendilhões do templo. Desapoderados, empobrecidos, amadorísticos, isolados, inofensivos enfim.

Os Discursos do Ego


O Discurso do Ego (liberal, anti-autoridade) é tão dominante nas sociedades materialistas e capitalistas, que mesmo aqueles que aspiram por depurar e superar o próprio ego, tornam-se céticos a respeito, castrando-se e permanecendo como amadores nas suas aspirações de auto-aperfeiçoamento, sem poder auxiliar mais ativamente ao próximo, o qual se torna desconfiado e refratário, apesar de carente e necessitado. De modo que os mundos que devem ser criados (nações, continentes) permaneçam como crianças: dependentes, doutrinados e colonizados.
Os materialistas e liberais não querem que estas pessoas cresçam e voltem a dar as cartas, como houve tantas vezes no passado, senão inevitavelmente teríamos um “regresso” ao primitivismo tribal ou, no máximo, ao feudalismo, onde os maiores direitos eram concedidos naturalmente aos fiéis das causas religiosas e nacionalistas das coroas reais. Ou seja: já sem possibilidades de anarquismo, de mais-valia e de exploração desmedida da Natureza, como querem os liberais e materialistas.

Maria Antonieta
De fato, as ordens espirituais e aristocráticas estão sujeitas à corrupção, porque “errar é humano”, e nem Deus almeja interferir radicalmente nas coisas impedindo o erro, a liberdade e a experiência. Contudo, se algo se perdeu é porque um dia também ganhou, isto é: teve valor e legitimidade. Neste caso, apenas parte do problema estaria na renovação, ao passo que a outra parte se encontra na restauração. Contudo, os revolucionários querem fazer esquecer que a Economia Espiritual do Mundo outorga periodicamente forças renovadoras & restauradoras! Para isto eles negam até a espiritualidade, ou pelo menos a sua profissionalização.
Os anarco-liberais vivem assombrados com o tema da “autoridade”. Não querem admitir que esta fixação vela a inconfessa projeção egóica de quem é imaturo, ou senão praticam cinicamente o alarmismo para impedir uma restauração cultural tradicionalista. Então buscam a calúnia e a difamação gratuita, valendo-se amiúde de questiúnculas como pretextos-de-efeito -como a famosíssima frase infame de Maria Antonieta, motivo suficiente para gulhotiná-la. Afinal, toda a “boa causa” demanda os seus ícones e bodes-expiatórios. Para ocultar que almejam o poder e manipular as massas, os liberais acusam as hierarquias tradicionais de “privilégios”. Contudo as classes hierarquizadas sempre foram por essência minorias naturais ilustradas.

A doutrinação é tão feroz que se aloja no inconsciente da sociedade, produzindo miríades de ideologias estéreis e legiões de alienados úteis que mal percebem suas contradições crônicas, as quais batizam de “utopias”.
Um dos últimos refúgios do ego está no misticismo, no desejo de ainda pertencer a uma “tribo”, separada do resto da humanidade como se “eleitos” fossem. Imagina-se, porém, o tamanho dos conflitos de um comunista –se este for capaz de enxergar o tamanho dos seus dilemas e contradições- ao tentar ser espiritualmente anarquista (ou independente de hierarquias), considerando que, se para os “raros” e “puros” a senda já é tão difícil, imagine para o “povo” em geral! Todavia, anarquismo nunca fez parte de nenhuma espiritualidade séria, é coisa de quem prefere preservar o próprio ego sob o pretexto de combater o ego alheio. Enfim, as velhas armadilhas do ego...

O ovo do dragão


O liberalismo burguês, berço do anarquismo –salvo uma visão algo mítica no Luciferismo- representa o ovo da serpente da Queda final da humanidade.
De início surgem os liberais, que ainda reconhecem a beleza das Escrituras como meritórias para edificar Civilizações. Porém, o liberalismo vela o ovo do dragão, porque na sua esteira vem o materialismo e a anarquia.
O materialismo evoluiu na esteira do liberalismo e a ele está atrelado, da mesma forma como o social-marxismo é dependente do capitalismo. São facetas de uma só e única Hidra, se completam e dialogam “dialeticamente” como cúmplices históricos.
Aristóteles dizia ser a demagogia a sombra da democracia. Porém quando a sociedade cresce se torna complexa já não há lugar para a democracia formal, quer se queira ou não. Daí, toca simplificar as coisas ou mudar o sistema social para algo mais confiável, pela profissionalização definitiva da política.

Mapa simbólico dos Três Continentes e Jerusalém central
O discurso liberal-materialista* até pode ter o seu lugar no Velho Mundo onde, com tanta História pretérita, novas ideias servirão apenas como ingredientes de equilíbrio. Porém, ele representa a mais pura alienação nos mundos em formação.
Em algum momento, se fará um balanço tão sincero quanto possível dos resultados destes dois grandes modelos econômicos e culturais: o feudalismo e o capitalismo. A menos que o próprio planeta venha a vomitar antes disto a algum deles, e sabemos perfeitamente qual poderá ser.
Nos mitos budistas, o Buda “toma a terra por testemunho” acerca da sua própria missão, porém, a humanidade poderá fazer o mesmo em relação ao consumismo desbragado que assola hoje o planeta a ferro-e-fogo: o mundo mesmo rejeita tais aberrações, sejam elas tópicas ou utópicas.

Resgatando as Fundações

Teseu e o Minotauro
Poucas ideologias possuem a sincera inclinação pelo Paraíso Terreno. O tema da “autonomia” está relacionado ao Pecado Original, de desobediência filial. O ser humano está como num labirinto onde o minotauro é seu ego, que quase sempre lhe afasta da verdade. O ego não pode conduzir, porque por definição ele é um desviador. É claro que também existem pessoas desviantes exteriores, a ideia porém é achar os orientadores, até que nosso ego se debilite ou despertemos em nós mesmos uma força maior do que ele.
A Filosofia Tradicional apregoa a obediência e o serviço à luz. Não se trata pois de obedecer a alguém, mas sim à Lei ou a certos princípios cósmicos de evolução. Tal como a própria ideia de Hierarquia, de buscar aprender com quem realmente sabe. Nada disto significa ser como cordeirinhos. O Cristo tinha plena ciência do preceito de Hierarquia, embora soubesse denunciar falsos profetas e falsos sacerdotes. Para quem está no caminho, todas estas coisas são possíveis.

Francisco retira Jesus da cruz
O liberalismo que ditar a sua democracia e impor a “igualdade de direitos” entre grandes e pequenos. Porém, para o pensamento tradicional não se trata de respeitar opiniões, porque homens de bem não fazem questão de ter opiniões. Esta é a diferença entre os iniciados e os ego-iludidos: um iniciado quer servir à luz sem julgamentos. E quando finalmente fala, é apenas desde a realização merecida. A atitude tradicional de silêncio interno do ego é muito mais verdadeiramente "zen" do que nenhum anarquista jamais foi em toda a sua vida de críticas sociais.
Cada mundo deve completar a sua evolução; um hemisfério não pode colonizar o outro e nem lhe impor as suas coisas e interesses. O regresso do feudalismo não será o fim-do-mundo, até porque o mundo nunca foi uma coisa só: importa é a liberdade real e a evolução necessária das sociedades independentes.
Até porque o feudalismo seria um positivo avanço na situação econômico-social da América Latina, entregue ao neocolonialismo e dominada por latifúndios ociosos ou alienados (monoculturas-de-exportação). Afinal, premiar as elites nacionalistas de todos os setores sociais (ou tornar elites culturais aos nacionalistas), poderia ser um primeiro passo para uma futura emancipação efetiva; já que nossas extintas monarquias euro-americanas nunca deram muito mais enredo que para um desfile de escola-de-samba.

Europa Regina - mapa simbólico com Ibéria in caput
Sebastian Münster, Cosmografía, Bohemia Bunting-1537
Para regressar ao paraíso terreal, o ser humano deve resgatar a sua condição filial a Deus. A busca pelo respeito à premissa da Ordem e do Serviço a Deus, tem legitimado regimes sociais espiritualizados (teocracias) e idealistas (monarquias), assim como grandes Sínteses universalistas (Sinarquia) nas origens das coisas, ainda sob a forja das Revelações.
Dizemos, pois, alto e bom som: é preciso resgatar as Fundações, ou seja: vox dei vox populi. Os céticos indagam então: quais critérios seriam usados para a vox dei? Ora, critérios histórico-espirituais tradicionais: a renovação/atualização da Revelação, no caso, através das figuras de São Francisco de Assis e Joaquim di Fiori, quem inspiraram o Espiritualismo e o Império do Divino, indiretamente conectado ao Quinto Império, a religião aristocrática da Panibéria Renascentista.
Claro que esta é apenas uma referência histórica, uma conexão próxima a referenciar de maneira plural. O Novo Mundo nesta altura já começa a apresentar, afinal de contas, as suas próprias sínteses e mateses filosóficas, mas as conexões históricas seguem vivas e pulsantes, também pelo reconhecimento dos desafios comuns pela formação própria destas nações.

* Liberais-materialistas são pessoas muito inteligentes para quem o mundo real começou na Revolução Francesa, mas teve alguns lapsos premonitórios de genialidade no universo grego-romano. Nunca sabem explicar bem a origem daquele milhão-e-meio de coisas inventadas pelos modelos sociais não-republicanos, porém as considera ótimos ornamentos para as suas iluminadas ideologias.

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Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
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